A advocacia de hoje e a mediocridade da oratória | Hugo Brito

Hugo Brito. Advogado no Acre. Pós-graduando em Processo Civil e Direito Civil pelo Instituto Elpídio Donisete.

Recordo-me com facilidade dos dias primeiros em que ouvi falar da profissão do advogado. Naquele então, morava no interior do estado do Acre, em uma pequena cidade, desafiadora por sua distância e isolamento geográfico, o município de Jordão. Falava-se muito naquele momento de um jovem criminalista de meu estado que a todos encantava com sua impecável e avassaladora oratória, o advogado Sanderson Moura.

Vejam que a impressão primeira que deixou marcas profundas em minhas lembranças foi a de um profissional que, não obstante o conhecimento técnico da área que escolheu professar, era alguém capaz de, com facilidade e maestria, abarcar horizontes muito diversos; capaz de “esgrimar” com as palavras; capaz de adentrar com facilidade na mente e na inteligência de quem o escutasse, persuadindo, convencendo, ensinando, encantando.

Essa era, pois, a característica comum nos advogados dos tempos idos; era esta, inevitavelmente, a impressão que se tinha deste profissional: homens de muitas leituras, cultura ampla, cultores das letras e da boa oratória.

Houve, inclusive, é bom que se diga, um tempo em que as características determinantes para que se escolhesse trilhar os caminhos descortinados pelas ciências jurídicas eram duas, a saber: gostar do estudo da Língua Portuguesa e, ao lado disso, ser um ávido e tenaz leitor. Sendo que esta última competência contemplava a História, Filosofia e outras áreas ditas humanísticas.

Na “Era Whatsapp”, no entanto, a preocupação com a formação cultural tem desvanecido irrefreavelmente. Lê-se muito, mas lê-se coisas vãs. Talvez nunca se leu tanto, é bem verdade, mas, infelizmente, leituras de facebook e whatsapp, potentes deformadoras do intelecto humano quando únicas como fontes de informação.

A cultura da mediocridade também fez morada nas universidades e faculdades do país. No ensino jurídico, desenvolveu-se o método dos resumos (lei do menor esforço). Alunos do curso de Direito, como regra (salvando-se, claro, devidas exceções), encaram como projeto inviável ler durante o perpassar dos cinco anos do curso ao menos uma doutrina dentre as muitas das mais variadas matérias da grade curricular. Talvez se o professor exigisse “hercúlea tarefa” (a da leitura), de certo seria, aos olhos de muitos discentes, considerado um verdadeiro algoz.

Incontáveis, portanto, são os que encerram o curso sem nunca terem lido os duzentos e cinquenta artigos da Constituição Federal de 1988, norma fundamental e fundamento de validade para as demais.

Esta gritante e visível realidade faz-nos lembrar da frase do personagem Brás Cubas, de Marchado de Assis, “No dia em que a Universidade me atestou, em pergaminho, uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no cérebro, confesso que me achei de algum modo logrado, ainda que orgulhoso.”

A realidade hodierna está aí a fazer as mais candentes provas do alegado que aqui vai, infelizmente.

As consequências disso tudo? Bom, até os olhos mais desavisados as veem.

O campo de atuação em que melhor se visualiza o desastroso resultado é, sem dúvidas, na advocacia, vez que é o lugar relativamente mais fácil de chegar quando “formado” em direito (os variados cursinhos cuidam disso).

Querem provas? É justo. Também é fácil de resolver. Em sendo assim, saiamos e nos dirijamos aos fóruns ou aos Tribunais e vejamos as sustentações orais.

A figura do advogado perito na arte do falar que tão bem foi construída por nomes que pontificaram em nossa profissão, como é o caso de Rui Barbosa, Romero Neto, Evandro Lins e Silva, Evaristo de Moraes, Sobral Pinto, Waldir Troncoso Peres etc., todos oradores excepcionais, é uma espécie em extinção.

Vivemos na era em que se despendem excessivo entusiasmo em coisas que pedem repouso. Vivemos a era da advocacia da influência que suplanta a advocacia do talento, do esmero, da viveza intelectual.

Sem espírito culto, impossível o despertar da eloquência. Esta encontra fertilidade no solo intelectual composto por um conjunto de conhecimentos que torna um homem fluente e o distingue de um falador obtuso. Sem bons oradores, ou mesmo escritores, a advocacia perde sua identidade histórica!

Esquematizando: Sem leitura e estudo permanentes, impossível formar um advogado que se destaque por suas potencialidades oratórias e intelectivas.

Concluiremos com Maurice Garçon ao afirmar que “uma sólida instrução, uma cultura geral extensa e mais especialmente um conhecimento profundo do Direito são indispensáveis ao orador judiciário”.

Como pode uma profissão, que teve Rui Barbosa, amesquinhar-se tanto no mundo da palavra falada e escrita? Como pode um país, que teve Machado de Assis, não conseguir formar leitores? A resposta nós a temos, basta uma rápida observação.


ASSIS, Machado. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ática, 1992. GARÇOM, Maurice. Ensaio sobre a eloquência judiciária. Campinas: Servanda, 2002